Copacabana Palace e o livreiro

Ontem estávamos passeando na orla, as crianças e eu. Uma orla sem carros, voltada aos pedestres. O dia estava bonito, com um vento fresco e apesar de estar com camiseta regata, Francisco não parecia estar com frio.

Decidimos que iríamos até o Copacabana Palace, que ficava logo após a colina. Iríamos ver onde a mamãe trabalhava.

Já no hotel as crianças sumiram. Fui encontrá-las atrás de um balcão em uma área administrativa no segundo andar, sob os olhares mal-humorados de um senhor que lá trabalhava. Consegui convencê-las a ir até o jardim do segundo andar.

Depois de brincarem no jardim resolvi chamá-los pra ir na biblioteca do hotel. O único que não quis nos acompanhar foi o filho da Julia. Mas ele é negro, será que ela já adotou uma criança e eu não lembrava?

Na biblioteca perdi as crianças de novo e não sabia se as procurava ou se olhava os livros. O bibliotecário (ou seria bibliotecária?), que mais parecia um anão ou anã de conto de fadas, ao me ver fez grande festa: “Há quanto tempo, majestade!” Por que será que ele tinha esta mania de nos chamar assim?

“Procuro algumas crianças, livreiro.” falei, me dirigindo a ele como ele gostava de ser chamado.

“Tem algumas ali naquela sala ao lado, mas não sei se são as suas,” ele respondeu.

“As minhas são as que estão ali no cantinho,” disse ao avistá-las.

À noite, enquanto caminhava pela rua sozinho, fiquei apertado para fazer xixi. Encontrei com o livreiro que me perguntou: “qual o seu problema, majestade?”

“Estou apertado, procuro um banheiro.”

O livreiro então me agarrou pela mão e decolou como um foguete, a mil por hora, eu balançando como um boneco na mão de uma criança.

“Pra onde vamos?,” perguntei.

“Te levo para o banheiro no palácio, majestade,” respondeu ele.

Não sei se foi a vertigem ou a velocidade, mas acordei logo em seguida.

Help! Beatlemania entre gerações

Já fui mais beatlemaníaco do que sou hoje, mas confesso que os Beatles tiveram um papel importante na minha formação e em meu interesse por música. Acho que eles foram os culpados por me contaminar pelo vírus do rock, e todos sabem que isso não tem cura.

Foi com os Beatles que a música passou de “ah, legal” para “putz, isso é muito maneiro!” Com isso veio o interesse em entender do que aquelas músicas maneiras estavam falando, buscar a letra, tentar traduzí-las, o que por sua vez foi fundamental para que eu aprendesse inglês bem.

Hoje meu filho Guilherme de 7 anos é fã dos Beatles. É engraçado ver ele escolhendo as músicas, pedindo para tocar no carro. Me pego pensando “acho que ele gosta mais daquela, quando era moleque eu gostava mais daquela outra.”

Resolvi então fazer um presentinho pra ele: um livreto de Help!, seu álbum predileto, com as letras e as traduções.

Peguei as letras, joguei no Google Translate e depois fui corrigindo. Não ficou um primor de tradução, busquei sempre a clareza mais do que outra coisa. Tentei tirar as referências mais óbvias às drogas (getting high, que eu saiba não tem outro significado) e ao mesmo tempo deixar tudo de maneira que ele entendesse. Aprendi algumas coisas também (jamais imaginei que riding so high fosse se achando no linguajar dos xóvens de hoje).

Estou sem máquinas Windows, virtuais ou reais, então compus o livro no software Scribus, um Indesign open source. Dos softwares gráficos livres achei o mais fácil de usar, pra quem já está viciado no pacote Adobe. Inkscape é muito Corel, quem vem de Illustrator tem mais dificuldade (pelo menos é minha impressão) e Gimp é… bem, Gimp. Tem tudo e nada a ver com o Photoshop.

Usei Fira Sans, uma fonte de licença livre desenvolvida pelo Erik Spiekermann para o Firefox OS da Mozilla, baseada na FF Meta. Não foi a intenção inicial usar só software livre, só foi acontecendo mesmo.

Imprimi em casa mesmo, papel sulfite com impressora a laser, e usei um barbante culinário da minha mãe para costurar a lombada canoa.

Achei o resultado bem razoável, para um designer não praticante. As fotos ficaram meio batata, mas fazer o quê.

Os mais extraordinários contos de horror

Mais uma pérola do sebo, uma coletânea de contos de horror publicada no Brasil em 1978 pela editora Civilização Brasileira. É tradução de Masterpieces of Horror, de 1966.

Capa do livro Os mais extraordinários contos de terror

Como não podia deixar de ser, tem três Edgar Allan Poe: Coração delator e os óbvios Assassinatos da rua Morgue e Barril de Amontillado. Outros dois contos são do Sherlock Holmes, não tão de horror assim, mas mais sombrios que o habitual. Os do Sherlock não são dos melhores, Coração delator é muito bom.

Dos outros autores que desconhecia se destacam Horror, de Will F. Jenkins, um thriller tenso do início ao fim, O preço de uma cabeça, de John Russel, um terror clássico estilo Contos da Cripta e O aniversário da vovó, de Frederic Brow, um conto curto e ácido sobre uma família muito unida.

Poesias, Olavo Bilac

Meu segundo livro do sebo foi uma edição pocket de banca de jornais da editora Martin Claret com poesias de Olavo Bilac.

Fiz um trabalho sobre ele na escola quando aprendi que ele era favorável ao serviço militar obrigatório, pois achava que os jovens da época poderiam aprender a ler aprender ofícios no exército (inocente). No dia de meu juramento de bandeira de reservista lembro do coronel iniciando a cerimônica com um “Saudações Bilaquianas a todos!”

O livro é uma coletânea com suas poesias completas, na ordem que foram publicadas, pelo que entendi. Da escola eu só lembrava da famosa Via Láctea, cujos canto XIII é o mais famoso. Considero difícil de separar o XII do XIII, e os dois são realmente muito bonitos.

Gostei de ver a progressão temática: no início eram comuns poemas históricos, principalmente com temas romanos. Acho que era o poderíamos esperar de um Parnasiano. Dessa parte gostei muito de Delenga Carthago!.

Mais pro final ele começa a ficar meio obsessivo com a morte e envelhecimento. Gostei muito dos sonetos Vulnerant omnes, ultima necat e Um beijo.

Vou dar uma passada no sebo pra achar mais alguma coisa interessante de poesia, é bom dar uma desacelerada na leitura. Quando pego esses romances devoro numa garfada, dependendo do tamanho.

Últimas leituras

Depois de fazer o trajeto para o trabalho lendo novidades no celular, passar o dia olhando para o monitor, não estava mais rolando ficar vidrado no celular novamente na volta pra casa. Meu último leitor de livros eletrônicos quebrou (sasporra são frágil), então quando vi aquele livro fantástico por dorreal no camelô da Carioca, não tive dúvidas. Desde então estou usando novamente esta maravilha analógica pra me ajudar a passar o tempo da viagem.

O livro fantástico que eu achei foi o segundo (provavelmente) da série Outernet:

Capa de Outernet: a caçada

Não tinha como não comprar, por dorreal com essa capa fantástica cheia de piranhas voadoras, Surfista Prateado meio tosco e um barbudo paz-e-amor de 4 dedos.

O livro era o de se esperar: uma aventura infanto-juvenil cheia de clichês da internet dos anos 1990. Mais infanto que juvenil, pra dizer a verdade, pra quem ainda vai levar um ou dois anos pra atacar Harry Potter.

Infelizmente o domínio go2outer.net já venceu faz tempo, mas pode ser comprado por U$ 250. O conteúdo pode ser acessado pelo archive.org, e como era de se esperar pela época, é em flash.

Valeu a leitura por me lembrar desse tempo de criança dos anos 1990. Fora isso…

Depois disso fiz uma visita ao sebo e peguei O estudo em vermelho, de Conan Doyle, Poesias de Olavo Bilac e Os mais extraordinários contos de horror, uma coletânea.

Pra falar a verdade não lembrava que as histórias de Sherlock Holmes eram de leitura tão rápida. Sei que tem uns contos, mas essa história parece mais um conto extendido. Foi divertido (re)ler as habilidades de dedução do detetive famoso, depois aproveitei pra rever o primeiro episódio do seriado Sherlock Holmes com o Benedict Cumberbatch e comparar melhor a adpatação. Bem interessante e similar.

Passarei a escrever mais sobre esses achados do sebo.

Extensão para Chrome que altera ‘Neymar’ para ‘Menino Ney’

Abusando da ironia, posso dizer que fico irritado com o tratamento dado ao Menino Ney por alguns brasileiros.

Conversando no trabalho sobre essa questão de passar a mão na cabeça de futebolistas e outras celebridades, surgiu esse papo de que ele é apenas um menino de quase 30 anos. Então tive essa ideia de fazer uma extensão para o Chrome que altera as strings “Neymar” ou “Neymar Jr” para “Menino Ney”.

Não dá pra instalar direto o arquivo da extensão porque o Chrome bloqueia extensões que não venham da Chrome Web Store, e eu não vou pagar U$ 5,00 pra publicar isso. Mas tem as instruções de como instalar no arquivo README.

Dá pra dar algumas risadas, com “Menino Ney pai” ou ler algumas notícias que ficam ainda mais tendenciosas com a alteração. Como diria meu amigo Bart, divirta-se com essa merda.

Festa estranha

Encontrei a Ísis na festa. Perguntei se ela tinha visto a Joana. Não. Ela por sua vez me perguntou se eu tinha visto o Bruno. Também não.

Procuramos um pouco pela festa e chegamos à conclusão de que eles estavam em {…}. Decidimos ir até lá.

O Alessandro nos deu uma carona. Ele seguia a 140 km/h na contramão, desviando dos carros que, parecendo borrões, vinham em nossa direção. De vez enquanto soltava uma gargalhada: “Hahahaha, se bater faz BUM!”

Acordei sem saber se chegamos.

Bagunçando a zorra toda

Então, como prometido, trouxe tudo o que importava pra cá. Ficou uma zona, mas parece até minha cabeça por dentro.

O primeiro foi o Difícil é ser eu, uma coleção de registros fotográficos de frases, máximas e poesias encontradas pela cidade. O nome curioso vem de uma pixação que eu admirava no viaduto da Linha Amarela, sobre a Edgar Werneck na Cidade de Deus. A frase completa era “falar de mim é fácil, difícil é ser eu.” Pra variar num daqueles lugares que o cara fez um esforço admirável pra pixar. Infelizmente nunca fotografei.

Trouxe quase tudo, tinha alguma coisa sem foto, o jeito que veio foi sem títulos, então assim ficou. Só organizei um pouco em sua categoria e coloquei as fotos para serem mostradas em tamanho maior.

Header que eu tinha feito de duas imagens para o Onirismo, provavelmente do unsplash

O outro é o Onirismo, um blog que comecei no tumblr escrevendo meus sonhos. Faz um tempinho que não posto nada, acho que de manhã não consigo desenrolar a história de maneira mais linear possível para ser registrada aqui.

Pensei em jogar o Onirismo pro books.tacensi.com. Books é um outro projeto, que por enquanto está em outro servidor, usando PressBooks. Por ora está fora do ar mas prometo resolver assim que der

Pressbooks é um projeto muito interessante, que usa WordPress como uma plataforma de publicação de livros digitais. É possível configurar cada detalhe, cada seção de um ou vários livros, e exportá-los em PDF ou EPub. Montei pra colocar as histórias de dormir que conto pra turminha, pensei em criar outro livro para o Onirismo, mas por fim resolvi trazer tudo pra cá mesmo.

E o que ficou pra trás, que vá pro túmulo com o tumblr.

digging your own grave GIF

Tchau, Tumblr, sentirei sua falta

Curiosamente na semana em que o WordPress lança a esperada versão 5.0 com o Gutenberg, o Tumblr anuncia uma atualização em seus termos de uso que proíbe publicação de temática adulta.

Essa proibição chega depois de um problema na loja de aplicativos da Apple, de onde o aplicativo do Tumblr foi retirado após ser encontrado pornografia infantil entre o material publicado por seus usuários. Tumblr deu uma declaração que o material já foi removido e não sei e pouco me interessa se voltou ou não para a loja da Apple. Fonte.

Já há uma declaração mais antiga do Tumblr sobre material violento e gore, então não sei se a proibição seguirá o modelo americano, onde tetas são proibidas mas tiros de fuzil e sangue escorrendo aparecem a torto e direito.

Não sou um consumidor de pornografia no Tumblr, mas existem alguns tumblrs que eu curto que se encaixam na temática adulta, como Sholim, LiarTownUSA (que já deu seu adeus) e Fuck You Very Much (cuja última postagem, em um longínquo fevereiro sei lá de que ano, chega a ser profética). Isso sem falar nos inúmeros blogs de memes que íam e voltavam.

Exemplo de postagm de LiarTownUSA
Último post de Fuck You Very Much

O tumblr sempre foi meio parecido com o Reddit, apesar de serem plataformas para fins diferentes. Enquanto o primeiro é uma excelente plataforma gratuita para expressão pessoal, o segundo é mais levantar discussões. Mas os dois são por natureza esquisitos, estranhos, talvez por fugirem da busca por holofote que são as outras redes sociais. São sites que não são compreendidos pelos não iniciados.

Essa estranheza do tumblr, junto com a facilidade e simplicidade de publicação, foi o que sempre me atraiu. É papo reto, sem frescura. Posso estar enganado, mas parece que foi o esquema de publicações deles que influenciaram os Formatos de Post do WP.

Não sou um usuário fiel do tumblr, mas a impressão que tenho é que tudo começou a ir ladeira abaixo depois da aquisição do Yahoo, que tem sua fama merecida de comprar produtos legais e emerdalhar.

O primeiro problema com essa censura é que pornografia infantil é errado, deve ser combatida, mas a responsabilidade é da empresa, não é dos usuários. O segundo é que a atmosfera permissiva do tumblr permitiu algumas comunidades se formarem, como de trabalhadores sexuais e pessoas que sofreram abusos, onde os participantes encontraram apoio e acolhimento. Por fim essas políticas acabam sendo no mínimo um desconforto para vítimas de trolls e outros usuários abusivos, como acontece muito no Twitter e outras plataformas de publicação.

Estou transferindo meus blogs mais interessantes, que não são NFSW e onde não posto tão frequentemente, para cá. A princípio não era muito minha ideia, mas enquanto procuro outro porto seguro, fica tudo junto e misturado mesmo.

O único NSFW é o CopaSacana, criado na época da copa do mundo pra mostrar os inúmeros panfletos recebidos nas ruas de Copacabana anunciando casas de massagem em salas comerciais. Esse deixa pra lá.

Tchau, goodbye, auf wiedersehen, tumblr.