Apocalipse Zumbi

Tínhamos acabado de chegar, Chris, Zu e eu. Essa seria a segunda vez que passaríamos o natal e réveillon juntos, toda a família. Ao invés de Paris, uma cidade da Inglaterra (ou Nova Inglaterra — New England — não lembro ao certo).

Fomos dar um passeio enquanto esperávamos pela chegada do resto da família quando Zu e Chris apontaram o comportamento estranho de algumas pessoas. Não tive dúvidas, estávamos no início de um apocalipse zumbi.

Após convencê-las de que devíamos sair antes que o caos se instalasse, decidimos por Paris. We will always have Paris. Mais um fim de ano na Cidade Luz, um pouco diferente desta vez.

Ao desembarcar em Paris notamos que a notícia já tinha se alastrado e as primeiras medidas estavam sendo tomadas. Conseguimos lugar em um café que aceitou nos abrigar. Nas ruas, barricadas eram montadas, apesar de ainda não haver contaminação confirmada em solo francês.

Nos acomodamos, esperando e rezando para que o resto da família chegasse em segurança.

WordCamp São Paulo 2019

Este fim de semana fui a São Paulo participar do WordCamp São Paulo. Enquanto em outras ocasiões fui como palestrante, nesta fui como participante, mas levando uma companhia especial: meu filho Guilherme, de 8 anos, que participou do WordKids.

A organização estava mais uma vez de parabéns. Apesar de ter uma ou outra pequena questão levantada, pra nós, participantes, foi tudo perfeito. Foram 700 pessoas inscritas e palestras de alto nível na excelente infraestrutura da Uninove.

WordKids

A ideia do WordKids / WordCreche foi sensacional. Enquanto o WordCreche dá uma tranquilidade e segurança para os responsáveis que estão no evento, o WordKids mostra pra criança o que é que a gente faz, além de apresentar uma noção maior de computação do que os tablets e celulares aos quais estão acostumados. Guilherme adorou e saiu de lá com um site pronto.

Palestras

É sempre difícil escolher as palestras, pois há muita coisa interessante rolando ao mesmo tempo. Então algumas anotações e observações sobre o que assisti.

As vantagens e os desafios na implementação do Mobile First

Leandrinho Vieira levantou algumas questões e números sobre a implementação da mentalidade do mobile first no desenvolvimento de websites, como partir desde o início, na fase do design, pensando em dispositivos móveis primeiro. O autor lembra que quando chegam a prática e os prazos, nem sempre conseguimos implementar do jeito que gostaríamos.

Alguns números levantados mostram que enquanto no segmento B2C temos 20% de acesso em desktop contra 80% em dispositivos móveis, no segmento B2B esses números se invertem. O número de celulares no Brasil já é maior que a população brasileira, com 61% de penetração e 85% de usuários navegando em celulares ao menos uma vez ao dia.

Outra questão levantada foi a necessidade de aplicativos nativos para celulares, quando usamos com regularidade menos da metade dos aplicativos que temos instalados em nossos aparelhos. Um bom site responsivo em muitos casos é melhor porque será mais barato e terá maior engajamento.

WordPress no Back e React no Front: Aplicativos web renderizados no servidor

Elihu Mejia nos apresentou um caso onde usou bibliotecas JavaScript para consumir a API Rest do WordPress, mas mantendo a renderização das páginas no back end. Elihu é uma figura com seu sotaque espanhol. Conseguiu arrancar umas risadas da plateia, intencionalmente ou não.

No caso apresentado, Elihu montou um site para o cliente, uma organização de médicos, usando alguns plugins como WP Rest Controller, Advanced Custom Fields e ACF to Rest.

Apesar de usar algumas ferramentas que seriam pesadas quando carregadas no cliente, ele montava toda a renderização no servidor, contornando este problema. Ele não usou uma arquitetura de SPA (Single Page Application) e usou rotas dinâmicas pra pegar a URL e montar a query.

Consumir API Rest do WordPress no VueJS

Jakeliny Gracielly também falou sobre a API Rest do WP, mas usando VueJS.

Ela mostrou alguns exemplos de como construir um aplicativo simples com Vue para montar uma página puxando os posts através da API. No final havia um QRCode para acessar os dados e o código, que não consegui acessar, então aguardo a publicação dos slides.

Precificação para Negócios Digitais

Larissa Sielichoff apresentou uma palestra muito interessante sobre como devemos precificar nosso trabalho. Ela lembra que a cobrança ainda é muito ligada à ideia da unidade física e seu custo de produção. A Apple começou a mudar isso desvinculando as músicas dos álbuns, fazendo com que pudéssemos comprá-las individualmente. O Spotify vai ainda mais longe, oferecendo essas músicas através de uma assinatura.

Ela falou sobre as três estratégias de precificação, que são sobre o custo, através da análise da concorrência e através da entrega de valor, e seus prós e contras. O preço depende ainda da disposição do cliente em pagar (Willing to Pay, ou WTP). O cliente não busca um produto, mas uma solução para o seu problema.

Por fim ela mostrou como podemos fazer uma matriz de valor para analisar os recursos dos nossos produtos, separando-os por core features (onde o cliente tem baixa disposição a pagar mas que são muito relevantes), diferenciações (alta disposição em pagar e alta relevância), add-ons (alta disposição em pagar e baixa relevância, ao menos entre parte do público alvo) e outros recursos que têm baixa relevância e baixa disposição em pagar. É muito útil identificar os últimos para não gastarmos energia e trabalho desnecessariamente.

Pausa para o rango

Almoço e fui buscar o rebento e tentar arrancar dele, que normalmente é caladão, o que teve de legal no WordKids. Foi difícil, mas consegui saber que ele aprendeu um pouco sobre computadores e internet.

A importância de comunidades de tecnologia voltada para mulheres negras

Logo depois do almoço teve a palestra que mais gostei pelo desconforto causado. Thassia Lays de Lima apresentou os problemas enfrentados por negros em geral e mulheres negras em particular em uma sociedade onde o racismo é institucionalizado.

Thassia ainda explicou que entende e respeita a luta das mulheres brancas por igualdade de salário, mas a luta das negras é por conseguir o emprego em primeiro lugar sem a confundirem com a tia do café. Se a elas não é dado o espaço, elas devem conquistá-lo, por isso a importância das comunidades.

Outro ponto tocado foi a propaganda em algumas empresas que querem mostrar uma diversidade que é da boca pra fora porque, apesar da diversidade aparecer no outdoor, dentro da empresa é uma homogeneidade branca (e na maioria masculina).

Essa apropriação de questões ambientais e sociais sempre me lembra o título da música Peace Sells, but Who’s Buying?, do Megadeth. As empresas usam muito essas imagens para vender, mas nem elas próprias compram as ideias.

Foram apresentados alguns tristes dados de violência contra as mulheres negras, que continua crescendo, enquanto a violência contra a mulher branca diminui. Impossível não sentir o nó na garganta com a foto da pequena Ágatha.

Thassia ainda disse que sua palestra não era para mulheres negras, mas para os brancos entenderem o que os negros em geral e as negras em particular sofrem, e que a piadinha ou brincadeira racista não é engraçada e só serve para perpetuar o racismo. Confesso que ao entrar e notar a sala vazia pensei que a palestra talvez devesse ter sido agendada para uma sala menor. Saí achando que deveria ter sido no auditório principal.

Copywriter

Viviane Casanova apresentou seu framework para copywriting, mostrando um escopo de artigo criado usando este framework, chamado de HEDA. HEDA significa Headline, Emoção / dor, Desejo e Ação.

A Headline deve capturar o usuário usando as palavras-chave principais do artigo. Emoção / dor serve para evocar o sentimento do usuário em relação a seu problema. Desejo aplaca essa dor, pegando a emoção levantada na descrição do problema e levando o usuário à Ação.

Para pesquisas Viviane indica Google Suggest e comentários de livros relacionados na Amazon e comentários de Youtube. Na minha opinião devemos só ter cuidado com os comentários do Youtube porque são cancerosos.

Interessante e a palestrante fez parecer super fácil, ainda mais quando criou um headline na hora de acordo com o cliente de um rapaz da plateia.

Criando blocos Gutenberg com React

Eduardo Pittol dá uma introdução à criação de blocos para o Gutenberg usando React, mostrando onde buscar informações para montar seu ambiente de desenvolvimento e usar as funções e hooks do WP para criar os blocos. Apesar de superficial, já que o tempo não permitia ir a fundo, a palestra deu uma boa ideia a desenvolvedores acostumados com PHP sobre o funcionamento dos blocos do Gutenberg.

Como o design centrado no usuário pode fazer um site valer 4x mais?

David Arty é um showman e apesar de apresentar alguns pontos importantes sobre o design centrado no usuário, o forte da palestra é sua apresentação em si. No começo ele chama a plateia para ajudar com a energia para o Goku dar a Genki Dama e espantar a zica.

Outras observações

Como sempre, é bom encontrar conhecidos e fazer novos contatos. Não pude ir no WordCana este ano por estar com um dimenor que estava cansado e iria dormir cedo. Mesmo assim o figura queria ir porque achou que WordCana tinha a ver com caldo de cana e pastel. Culpa do WaPuu criado para esta edição.

A doação de livros para a Bienal da Quebrada também foi sensacional, com mais de 800 livros arrecadados. Minha contribuição foi menor do que a desejada porque era difícil levar muitos livros em um voo sem bagagem, mas foi bonito ver a mesa quase quebrando com o peso.

Enfim, saldo mais que positivo. Aguardo os slides e os vídeos das palestras que não pude assistir.

Aeroporto

Era uma churrascaria de aeroporto de cidade pequena, daqueles cuja pista comporta no máximo um 737.

A carne estava ruim. Com muito custo descolei uma maminha que poderia considerar razoável. Comi, paguei e na saída cumprimentei um moleque, nos seus 5 ou 6 anos, fantasiado de Batman, que entrava com seu pai.

No saguão do aeroporto, enquanto esperava meu voo, comecei a sentir um leve tremor. O tremor foi aumentando, o barulho também. Logo todas as janelas do aeroporto sacudiam com o trovejar de uma enorme aeronave que se aproximava.

Enorme seria eufemismo. Um 737 ao lado dela parecia uma moto ao lado de um 737. Não haveria maneiras de uma aeronave daquele porte pousar neste aeroporto. Descobri que ela não veio pousar, mas abastecer. Meia dúzia de aviões acompanhavam os círculos no ar dados pelo colosso aéreo, como moscas ao redor de um cachorro. Um por vez, colavam no montro para abastecê-lo.

Durante duas horas o espaço aéreo do aeroporto ficou fechado enquanto o gigante alado era abastecido. Durante duas horas o barulho dos motores da enorme aeronave sacudiu as janelas do aeroporto. Durante duas horas fiquei olhando pra cima, admirando o balé aéreo.

Lembrei do Júlio. Acho que ele daria um rim pra estar lá admirando também.

Meta

Esta noite tentava explicar para o André meu sonho e seu significado. Não consigo de maneira alguma lembrar o que o sonho sonhava.

Copacabana Palace e o livreiro

Ontem estávamos passeando na orla, as crianças e eu. Uma orla sem carros, voltada aos pedestres. O dia estava bonito, com um vento fresco e apesar de estar com camiseta regata, Francisco não parecia estar com frio.

Decidimos que iríamos até o Copacabana Palace, que ficava logo após a colina. Iríamos ver onde a mamãe trabalhava.

Já no hotel as crianças sumiram. Fui encontrá-las atrás de um balcão em uma área administrativa no segundo andar, sob os olhares mal-humorados de um senhor que lá trabalhava. Consegui convencê-las a ir até o jardim do segundo andar.

Depois de brincarem no jardim resolvi chamá-los pra ir na biblioteca do hotel. O único que não quis nos acompanhar foi o filho da Julia. Mas ele é negro, será que ela já adotou uma criança e eu não lembrava?

Na biblioteca perdi as crianças de novo e não sabia se as procurava ou se olhava os livros. O bibliotecário (ou seria bibliotecária?), que mais parecia um anão ou anã de conto de fadas, ao me ver fez grande festa: “Há quanto tempo, majestade!” Por que será que ele tinha esta mania de nos chamar assim?

“Procuro algumas crianças, livreiro.” falei, me dirigindo a ele como ele gostava de ser chamado.

“Tem algumas ali naquela sala ao lado, mas não sei se são as suas,” ele respondeu.

“As minhas são as que estão ali no cantinho,” disse ao avistá-las.

À noite, enquanto caminhava pela rua sozinho, fiquei apertado para fazer xixi. Encontrei com o livreiro que me perguntou: “qual o seu problema, majestade?”

“Estou apertado, procuro um banheiro.”

O livreiro então me agarrou pela mão e decolou como um foguete, a mil por hora, eu balançando como um boneco na mão de uma criança.

“Pra onde vamos?,” perguntei.

“Te levo para o banheiro no palácio, majestade,” respondeu ele.

Não sei se foi a vertigem ou a velocidade, mas acordei logo em seguida.

Help! Beatlemania entre gerações

Já fui mais beatlemaníaco do que sou hoje, mas confesso que os Beatles tiveram um papel importante na minha formação e em meu interesse por música. Acho que eles foram os culpados por me contaminar pelo vírus do rock, e todos sabem que isso não tem cura.

Foi com os Beatles que a música passou de “ah, legal” para “putz, isso é muito maneiro!” Com isso veio o interesse em entender do que aquelas músicas maneiras estavam falando, buscar a letra, tentar traduzí-las, o que por sua vez foi fundamental para que eu aprendesse inglês bem.

Hoje meu filho Guilherme de 7 anos é fã dos Beatles. É engraçado ver ele escolhendo as músicas, pedindo para tocar no carro. Me pego pensando “acho que ele gosta mais daquela, quando era moleque eu gostava mais daquela outra.”

Resolvi então fazer um presentinho pra ele: um livreto de Help!, seu álbum predileto, com as letras e as traduções.

Peguei as letras, joguei no Google Translate e depois fui corrigindo. Não ficou um primor de tradução, busquei sempre a clareza mais do que outra coisa. Tentei tirar as referências mais óbvias às drogas (getting high, que eu saiba não tem outro significado) e ao mesmo tempo deixar tudo de maneira que ele entendesse. Aprendi algumas coisas também (jamais imaginei que riding so high fosse se achando no linguajar dos xóvens de hoje).

Estou sem máquinas Windows, virtuais ou reais, então compus o livro no software Scribus, um Indesign open source. Dos softwares gráficos livres achei o mais fácil de usar, pra quem já está viciado no pacote Adobe. Inkscape é muito Corel, quem vem de Illustrator tem mais dificuldade (pelo menos é minha impressão) e Gimp é… bem, Gimp. Tem tudo e nada a ver com o Photoshop.

Usei Fira Sans, uma fonte de licença livre desenvolvida pelo Erik Spiekermann para o Firefox OS da Mozilla, baseada na FF Meta. Não foi a intenção inicial usar só software livre, só foi acontecendo mesmo.

Imprimi em casa mesmo, papel sulfite com impressora a laser, e usei um barbante culinário da minha mãe para costurar a lombada canoa.

Achei o resultado bem razoável, para um designer não praticante. As fotos ficaram meio batata, mas fazer o quê.

Os mais extraordinários contos de horror

Mais uma pérola do sebo, uma coletânea de contos de horror publicada no Brasil em 1978 pela editora Civilização Brasileira. É tradução de Masterpieces of Horror, de 1966.

Capa do livro Os mais extraordinários contos de terror

Como não podia deixar de ser, tem três Edgar Allan Poe: Coração delator e os óbvios Assassinatos da rua Morgue e Barril de Amontillado. Outros dois contos são do Sherlock Holmes, não tão de horror assim, mas mais sombrios que o habitual. Os do Sherlock não são dos melhores, Coração delator é muito bom.

Dos outros autores que desconhecia se destacam Horror, de Will F. Jenkins, um thriller tenso do início ao fim, O preço de uma cabeça, de John Russel, um terror clássico estilo Contos da Cripta e O aniversário da vovó, de Frederic Brow, um conto curto e ácido sobre uma família muito unida.